A Mágoa… está para lá da tristeza, da solidão, do desejo de lutar pelo que já se perdeu, da raiva de não ter o que mais se queria e da pena de ter deixado fugir um grande amor, por ser demasiado grande. Primeiro grito, barafusto, soluço, faço esperas, mando mensagens e mais mensagens e escrevo textos enormes que juntos davam um livro. Os dias passam mais depressa parece que se comem uns aos outros e a vida parece que não tem sentido. Há quem se rodeie de amigos, durma com antigos casos, se enrole numa manta de xadrez e se torne o mais fiel cliente do clube de vídeo da esquina. Há quem tome calmantes, absorva vodka em noitadas vazias como uma esponja inútil, se mude outra vez para casa da mãe, ou parta para uma viagem para um local turisticamente muito apetecível. O pior é quando lá chegamos, apetece-nos tudo menos lá ficar. Percebemos que não há distância para a dor, e que nenhum amante, amigo, mãe, irmão, ou bebida matam a saudade do que já fomos ou de quem já tivemos nos braços. A mágoa chega e então o cansaço já não nos deixa sentir mais nada. É silenciosa e matreira, instala-se sem darmos por ela, aloja-se no coração e começa a deixar sinais aqui e ali, dentro de nós. A pouco e pouco sentimos que já não somos a mesma pessoa. As cicatrizes podem esbater-se com os anos e ser remendadas com hábeis golpes de plástica, mas ficará para sempre debaixo dos excertos que fazemos à alma. O cansaço mata tudo. A raiva de não termos quem tanto amámos, a fúria de não sermos donos da nossa vontade, o orgulho de termos perdido quem mais queríamos. Só não mata as saudades e a vontade de continuar a sonhar que um dia pode mudar outra vez e libertar-nos de nós mesmos e do sofrimento, tão grande quanto involuntário, tão patético quanto verdadeiro. Às vezes, quando a mágoa é enorme e sufoca, permanecemos em silêncio para que ela não nos consuma. Fingimos que está tudo bem, rimo-nos de nós próprios perante os outros e até mesmo perante o outro que vive dentro de nós. Tornamo-nos espectadores da nossa dor. Afastamo-nos de nós, do que somos, daquilo em que acreditamos. No fundo estamos a desistir, como quem volta atrás porque tem medo do escuro, vencidos pela desilusão cansados de esperar em casa que o mundo pare e se lembre de nós. Mas o mundo nunca pára. Nada pára. A vida foge, os dias atropelam-se, é preciso continuar a vivê-los, mesmo com dor, mesmo com mágoa. Pelo menos a mágoa magoa, faz-nos sentir vivos. Arde no peito e no orgulho, mas pouco a pouco vai matando a dor. Torna-se a nossa companheira mais próxima, deixando de nos defender da tristeza que se vai consumindo como uma vela esquecida num presépio morto que uma corrente de ar ou um novo sopro de vida um dia apagará. Mas isso só é possível quando conseguirmos esquecer.
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p.s: este texto é para várias pessoas!
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